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Brera


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Brera: um quarteirão a não perder em Milão

Publicado por Catarina Frazão de Faria — um ano atrás

No coração do centro histórico de Milão, não muito longe da grandiosa praça da catedral, surge um quarteirão conhecido por todos os milaneses como a alma artística e boémia da cidade: Brera.

Onde, exactamente?

Se estivermos na Piazza alla Scala, de frente para o Teatro alla Scala, basta seguir a Via Giuseppe Verdi, que nos conduz à movimentada Via Brera, a primeira grande referência do quarteirão.

Limitado a norte pelas Via Pontaccio e Via Fatebenefratelli, a este pela Via dei Giardini, a sul pelas Via Monte di Pietà e Via dell’Orso, e do lado ocidental pelas Via Ponte Vetero e Via Mercato, dispõe-se no confim norte do anel interior da cidade, outrora definido pelas muralhas medievais (“Cerchia dei Navigli”).

Brera vem “ideologicamente” combinada aos quarteirões de Moscova e Porta Garibaldi, imediatamente adjacentes a norte, como imagem de marca da movida milanesa.

Como e porquê?

Fascinante e apaixonante, atraindo muitos turistas, Brera é também um local de eleição dos habitantes da cidade para passear tranquilamente, fruindo da magia que se faz sentir no ar ao atravessar as suas ruas estreitas. Para além da Via Brera, as outras duas ruas principais são a Via Fiori Chiari e a Via Madonnina.

Os nossos olhos dispersam-se pelas boutiques de luxo e galerias de arte, pelas fachadas elegantes dos palácios (que imprimem um estilo arquitectónico muito característico), pelos restaurantes requintados que servem o melhor da comida italiana, e pelos bares e discotecas da moda, que à noite se enchem e dão nova vida a um quarteirão que já de dia é sinónimo de animação.

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Via Fiori Chiari em dois momentos diferentes: Fevereiro de 2018 vs. Março de 2019

A atmosfera de Brera é contagiante, mas acima de tudo é única na cidade: arte, comércio e gastronomia em perfeita sintonia num espaço de Milão que merece o máximo dos honores.

O que ver e fazer?

Brera foi-se transformando e desenvolvendo ao longos dos últimos dois séculos como “distrito cultural”. Conte-se que foi no final do século XVIII que começou a ganhar os seus edifícios marcantes, nomeadamente a Academia de Belas Artes, por ordem da empreendedora imperatriz austríaca Maria Teresa. Passou então a reunir artistas, estudantes e intelectuais, tornando-se um antro vivaço de creatividade e inspiração artística.

Actualmente, o projecto “Brera Design District” reflecte o espírito que “desde sempre” se associa a esta zona da cidade. Não faltam lojas de objectos de arte e antiquários diversos e desenrola-se um mercado de artesanato nas ruelas de Brera, no terceiro domingo de cada mês, onde se pode encontrar à venda um pouco de tudo, desde bijuteria a porcelanas, a antiguidades e também modernices

Por outro lado, Brera é uma das metas das semanas da Moda e do Design, que no geral constituem momentos muito importantes para Milão pois fazem disparar o turismo e os negócios das grandes marcas italianas, mas tomam particular relevância ao catalisar também o pequeno (mas ilustre) comércio característico deste e outros quarteirões emblemáticos da cidade.

As ruas pitorescas, feitas de cantos e recantos, são para ser percorridas exclusivamente a pé. Aliás, são completamente pedonais, tornando o quarteirão livre de trânsito e confusão, apenas invadido pela movimentação da gente que acorre para explorar os seus pontos de interesse.

Deixo então alguns dos principais destaques.

  • Palazzo Citterio e Palazzo Cusani

Edificados pelas homónimas famílias nobres, são representações do estilo barroco milanês que marcou a época 1600-1700, realçando-se as elaboradas e exuberantes fachadas.

  • Palazzo di Brera

O número 28 da Via Brera é o ex-libris do quarteirão e dos mais notáveis edifícios históricos de Milão, tendo sido construído no século XVII para albergar o colégio dos jesuítas.

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Fachada do Palazzo di Brera

Tornou-se depois sede de novas instituições de realce científico- artístico, ao ser restruturado pelo arquitecto Giuseppe Piermarini com o objectivo de fundar um dos institutos culturais mais avançados da cidade. Surgiram assim no vasto complexo deste palácio a Biblioteca Nacional Braidense, o Orto Botânico, a Academia de Belas Artes, o Instituto Lombardo de Ciências e Letras e o Observatório Astronómico, sendo igualmente casa, desde 1882, da Pinacoteca de Brera.

Claro que todas as atracções aqui presentes valem a pena uma visita, porém, não tendo oportunidade, é absolutamente obrigatório não deixar de entrar no pátio interior, embelezado em todo o seu redor de pórticos e onde se centraliza o icónico monumento a Napoleão segurando Nice, a deusa alada da vitória (em italiano “Vittoria Alata”).

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Pátio interior do Palazzo di Brera, evidenciando a estátua napoleónica

Aqui temos entrada directa para a Pinacoteca, que foi um dos primeiros museus públicos de arte italiana a ser estabelecido. É hoje uma galeria de arte antiga e moderna, na qual podemos encontrar uma das colecções de pintura mais vastas e prestigiosas de toda Itália, com obras que cobrem cinco séculos de história, realçando em particular as escolas lombarda e veneta.

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Na lógia superior do pátio interior do Palazzo di Brera

O percurso expositivo conta com quase 40 salas, sendo um programa sugestivo para passar uma manhã cultural, tanto que a Pinacoteca de Brera é precisamente um dos sítios italianos mais procurados. É de aproveitar a entrada gratuita no primeiro domingo de cada mês, caso contrário o preço é de 8€ jovens até 25 anos, mas note-se que é gratuito para estudantes das áreas de Artes e Letras. Para mais informações, sugiro que consultem o sítio oficial, o qual disponibiliza também uma “tour virtual”.

Ainda antes de falar um pouco sobre algumas das obras de maior relevo no museu, merece ser comentada a sua lindíssima entrada na lógia superior do pátio de honra, dominada por um relógio que tinha sido inicialmente colocado para controlar a entrada e saída dos estudantes que frequentavam o colégio dos jesuítas.

Com os bombardeamentos anglo-americanos da 2ª Guerra Mundial, que atingiram em força Milão, o Observatório, que estabelecia a hora média nacional, sofreu graves danos, assim como o relógio, que deixou de funcionar. Foi apenas no início do século XXI que foram feitas reparações ao seu mecanismo , que actualmente funciona, mas sem fazer soar qualquer campainha.

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"Orologio pubblico a campane di Brera"

Quanto às obras de arte, algumas das mais importantes são "Ritrovamento del corpo di San Marco" de Tintoretto, "Il Bacio" e "Ritratto di Alessandro Manzoni" de Francesco Rayez, "Cristo Morto" de Andrea Mantegna, "Sposalizio della Vergine" de Raffaello, e "Pala Montefeltro" (também conhecida como "Pala di Brera") de Piero della Francesca. Encontramos ainda obras interessantes de outros artistas italianos, como Caravaggio e Bellini, numa exposição permanente que vai desde a Idade Média ao Renascimento, a obras contemporâneas do século XX.

Não tirei muitas fotografias no interior do museu, mas houve um quadro que me chamou à atenção e decidi registá-lo no meu álbum...

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(Não me recordo do autor desta obra, nem o seu título...)

Este é um museu que aconselho vivamente a visitar em Milão! Pelo menos duas horas são necessárias para ver tudo com olhos de ver, mas vale muito a pena.

A Biblioteca Nacional Braidense é outra visita a considerar. Instaurada ainda antes da Academia de Belas Artes, é a terceira italiana mais importante em termos de riqueza do seu recheio, que conta com um milhão e meio (!) de unidades, entre livros, manuscritos, jornais e microfilmes. As partes que podem ser visitadas pelo público geral são o átrio e o salão monumental (“Sala Maria Teresa”), lindamente decorados.

Tenho pena de não ter conseguido espreitar esta pequena maravilha literária, onde estantes e estantes recheadas de livros antigos são motivo de grande admiração, mas deixo a dica para o próximo! Assim como em relação ao Observatório e ao Jardim Botânico, que podem ser explorados.

O Observatório é a instituição científica mais antiga de Milão, tendo entrado em funcionamento na segunda metade do século XVIII. Toma especial atenção pela incrível “Cupola Schiaparelli”, intocada desde 1800, e donde um terraço é o local ideal para fotografias panorâmicas sobre o horizonte de Milão, e pelo museu, que alberga diversas instrumentações antigas do foro astronómico, sendo mais interessante optar pela visita guiada, que é conduzida por um astrónomo.

O orto encontra-se sob a gestão da Università degli Studi di Milano (a minha universidade), mas aparenta estar um pouco descuidado, quase decadente, o que, não obstante, lhe confere de um certo um ambiente cativante.

  • Chiesa di Santa Maria del Carmine

Tomando o curso da Via del Carmine, perpendicular à Via Brera em frente ao Palazzo Citterio, vamos ter à Piazza del Carmine onde a grande atracção é a “Chiesa di Santa Maria del Carmine”, sede milanesa da Ordem das Carmelitas.

Edificada no século XIV, a igreja viu a sua fachada central ser restaurada no final do século XIX em estilo neo-gótico lombardo, pelas mãos do arquitecto Carlo Macciachini, destacando-se a rosácea ricamente esculpida (por sinal, elemento arquitectónico de eleição nos monumentos religiosos em Itália) e a luneta da porta central com um mosaico da “Madonna no trono entre San Simone Stock e um anjo”.

Não menos relevante é a famosa estátua de bronze do artista Igor Mitoraj, denominada “Grande Toscano” mas vulgarmente conhecida como “Petto a metà” (peito a metade). Se virem a fotografia, percebem…

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Piazza del Carmine (Fonte) https://illbrightback.com/quartiere-brera-a-milano/

Esta praça é também bastante chamativa pelos bares, que proporcionam um ambiente agradável par vir tomar um aperitivo ao entardecer ou uma bebida à noite antes de ir sair para um dos clubes nocturnos do quarteirão.

  • Basilica di San Marco

A Piazza San Marco, ao virar da esquina na Via Fatebenefratelli, é um local histórico em Milão, onde desde o século XII se encontra a igreja dedicada a São Marco. A fachada foi igualmente restaurada por Maciacchini, apresentando-se por isso muito no mesmo estilo da igreja que referi em cima.

No interior desta igreja sei que existem uns frescos muito bonitos e órgão mais antigo de toda a Lombardia…

Onde comer?

Passear em Brera não é coisa para se fazer só uma vez. Como tal, foram vários os momentos do dia em que andei pelas ruas pictóricas a descobrir novos cantos, e também novos restaurantes para saborear um bom prato à italiana.

Tanto almocei como jantei neste quarteirão e devo dizer que nunca saí desiludida. São muitos os restaurantes na Via Fiori Chiari e na Via Madonnina, uns atrás dos outros, todos com um ambiente acolhedor e chamativo, seja pela toalha aos quadrados vermelho/branco, seja pela oferta de Prosecco à entrada, seja pelo cheiro divinal da comida que vem servida para as esplanadas.

Os dois restaurantes que conheço são “Il Cestino” e “Taverna del Borgo Antigo”, ambos muito populares e de excelente qualidade. Vejam os sítios online porque desde logo ficam com a ideia correcta do que podem esperar: nada menos do que algo delicioso.

Atenção somente ao facto de não ser possível fazer uma refeição por menos de 15€, já que os preços se elevam com a obrigatoriedade de pagamento da taxa de serviço (“coperto”), que aqui não é barata.

A um fui com amigos, ao outro com o meu pai e o meu irmão (quando me vieram visitar) e fosse Inverno ou Verão, as mesas no exterior são as mais agradáveis, pois sentimo-nos realmente a experienciar o “fervor alegre” deste quarteirão. Mais uma vez reitero que a comida é mesmo muito boa; penso que da primeira vez comi o calzone clássico com mozzarella, fiambre e molho de tomate, e da segunda comi um risotto, mas os menus são extensos e com opções diferentes, para todos os gostos, do melhor da gastronomia italiana, e milanesa em particular.

Brera: um quarteirão a não perder em Milão

Almoço no "Il Cestino"

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Jantando em família no restaurante “Taverna del Borgo Antigo”

Estas foram as minhas sugestões para Brera, que é sem dúvida alguma um dos bairros mais apelativos da cidade!

Aqui podemos perder-nos à vontade pelas ruas que encontramos sempre uma montra ou uma fachada de um edifício que nos chama a atenção e nos remete para uma sensação bucólica de estar num “borgo” italiano mas dentro de Milão.

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